quinta-feira, 26 de junho de 2014

A Comissão da Verdade e as Forças Armadas

Não me surpreende, mas desgosta e muito, ver a campanha acirrada promovida pela imprensa em geral para denegrir a imagem das Forças Armadas Brasileiras.
Por acaso, comecei a assistir há pouco a uma entrevista do Ministro da Defesa, Celso Amorim, a Miriam Leitão, na Globo News, já em andamento e que terminou agora.
A postura da entrevistadora, ao contrário do que estou acostumada a ver, foi extremamente agressiva, beirando o desrespeito com a pessoa do Ministro. Não lhe permitia terminar as respostas ou completar os raciocínios e metralhava uma pergunta atrás da outra.
Celso foi tratado como um inimigo, por ser, como Ministro da Defesa, o comandante das Forças Armadas. É, no entanto, o mesmo Celso Amorim que já foi Ministro das Relações Exteriores - tratado, então, com todo o respeito e sem qualquer animosidade.
O alvo, porém, eram as Forças Armadas. Enquanto Celso Amorim até se esforçava por cumprir o seu papel, Miriam Leitão tentava por todos os meios associar aos militares brasileiros a imagem de assassinos e torturadores que desprezam os direitos humanos. Seu objetivo claro era fazer com que o telespectador compreendesse que as Forças Armadas são uma instituição ultrapassada e desnecessária, uma espécie de clube "ultraconservador" (no sentido pejorativo do termo) que insiste em manter valores que já não fazem parte da cultura e da mentalidade da sociedade brasileira (será?).
No momento em que comecei a assistir à entrevista, a entrevistadora mencionava ao Ministro que as Forças Armadas haviam enviado para a Comissão da Verdade um relatório, em resposta a um pedido, feito em fevereiro deste ano, de que fossem feitas sindicâncias para apurar os desvios de finalidade (leia-se "tortura", "prisão ilegal" e "assassinato") de instalações militares durante o período do governo militar (1964-1985). Segundo ela, o tom desse relatório era eminentemente formal, não admitindo a tortura e as mortes ocorridas nessas instalações.
O Ministro, por sua vez, dizia que foram fornecidas respostas, ainda que em tom formal, a tudo o que a Comissão da Verdade havia perguntado. E que as Forças Armadas estão abertas a continuar respondendo se mais perguntas lhes forem enviadas pela Comissão. Mas o tom da resposta foi de defesa, de alguém que se encontra acuado ou, pelo menos, em um papel bastante incômodo - obrigado a defender quando preferia, na verdade, acusar.
Miriam Leitão questionou a validade do ensino dos colégios militares (reconhecidamente as melhores escolas do país), porque seriam transmissores dos valores militares conservadores e ultrapassados; colocou em cheque a finalidade das Forças Armadas; disse que os militares de hoje devem romper com sua história institucional; e chegou a sugerir que as Forças Armadas precisam pedir desculpas à nação brasileira (!!!).
Enquanto isso, de forma bastante débil, o Ministro Celso Amorim fez alguma defesa de seus comandados, lembrando à jornalista que as Forças Armadas tiveram um papel importante na II Guerra Mundial, quando ninguém imaginava que o Brasil precisaria se defender de agressores externos; têm, hoje, um papel importante na pacificação das favelas do Rio de Janeiro (mencionou explicitamente o Complexo do Alemão e a Favela da Maré); e que ninguém pode prever se o país não terá novamente, em um futuro próximo ou distante, necessidade da atuação de suas Forças Armadas; que não podem, portanto, ser descartadas como instituição.
Ao menos, o Ministro discordou da jornalista quanto ao pedido de desculpas. E disse que os militares de hoje não são os mesmos que atuavam no período do governo militar.
Ainda assim, as Forças Armadas não encontraram um defensor em seu involuntário comandante. Nem poderiam. Celso Amorim compartilha plenamente da mentalidade do governo atual de que as Forças Armadas não servem enquanto representarem uma visão de Brasil e de mundo oposta à sua. Enquanto os militares em geral puderem ser vistos como uma força de oposição ao projeto de poder da esquerda, eles são os vilões da história. Só deixarão de sê-lo quando estiverem desmoralizados aos olhos da sociedade brasileira, porque então, esfacelados institucionalmente, as Forças Armadas estarão inteiramente a serviço deste grupo que tenta, por todos os meios lícitos e ilícitos, perpetuar-se no poder, recriando o Brasil nos moldes de Cuba e da Coréia do Norte.
A entrevista que acabei de assistir foi tão imparcial quanto a Comissão da Verdade. Houve tortura durante o regime militar? Claro que sim. Houve mortes, prisões ilegais? Lógico que sim. Mas cumpre esclarecer que houve tudo isso... de ambos os lados. Os grupos armados da esquerda -  TERRORISTAS - seqüestraram, torturaram e mataram, tanto ou mais do que as Forças Armadas. A Comissão da Verdade mencionou isso? Nunca. Nenhuma vez.
Por outro lado, se os militares estabeleceram um governo ditatorial - diga-se (não de passagem) que ouvindo o CLAMOR de toda a sociedade brasileira da época, temerosa da ameaça de um governo comunista no Brasil - seu objetivo era garantir a estabilidade constitucional e, logo que possível, afastadas as ameaças externas (o comunismo soviético - estávamos em tempos de Guerra Fria), restabelecer o regime democrático, marcando novas eleições e a retomando os governos civis.
Quanto aos grupos guerrilheiros de esquerda e os partidos comunistas (então, clandestinos), pensavam em estabelecer no Brasil uma ditadura de esquerda. Por isso lutavam, assaltavam bancos, colocavam bombas em locais onde fatalmente civis inocentes seriam (e foram) feridos ou mortos, seqüestravam e também torturavam e matavam. Seu objetivo nunca foi estabelecer uma democracia no Brasil. Pelo contrário.
O fato é que o governo militar começou a lançar mão da tortura quando a guerrilha, fortalecida e ousada, começou a tornar-se uma ameaça séria, real, concreta. O famigerado Ato Institucional número 5 (AI-5) nada mais foi do que uma resposta as ações da luta armada da esquerda. As Forças Armadas compreenderam, naquele momento, que estavam em meio a uma guerra e que o Brasil inteiro corria o risco de virar território de guerrilha.
Estes fatos são levantados pela Comissão da Verdade? Não. Alguma das vítimas civis - inocentes que estavam no lugar errado e na hora errada - foi ouvida e ressarcida pelos danos sofridos ou pelos familiares que perdeu? Não. Os familiares dos militares mortos no cumprimento do dever (lutando contra os guerrilheiros comunistas) receberam qualquer reconhecimento por parte da Comissão da Verdade? É claro que não.
Não era hora do Brasil ter uma Comissão da Verdade. Não assim, parcial, ideológica, subserviente a um grupo que, aproveitando-se do fato de estar no poder e ter as instituições na mão, faz a sua revanche. A finalidade de uma comissão destas deveria ser apurar os fatos históricos para colocar nos livros dos estudantes do ensino médio brasileiros TUDO o que realmente aconteceu naquele período tal conturbado da história de nosso país. Se não serve para isso, não serve para nada, exceto para criar ressentimento contra as Forças Armadas e (mais uma) divisão na sociedade brasileira.
Uma sociedade dividida, com instituições enfraquecidas e Forças Armadas desmoralizadas torna-se presa fácil de mercenários do poder. Até quando vamos permitir esse estado de coisas?

terça-feira, 30 de julho de 2013

Bento XVI - O mundo se apequena sem a voz de um gigante

Este artigo não é novo, mas é uma ótima análise sobre o pontificado de Bento XVI e sobre as questões mais profundas que envolveram a sua renúncia.
Por isso reproduzo-o aqui.
Boa leitura!

***

(fonte: Jornal Opção)
Edição 1963 de 17 a 23 de fevereiro de 2013 
Bento XVI
O mundo se apequena sem a voz de um gigante
Mais do que uma tentativa de confrontar a Igreja com seus próprios problemas, a renúncia do papa é um sacrifício para salvar o homem e o Ocidente que o criou
Vaticano
José Maria e Silva 
“Stalin tinha razão ao dizer que o Papa não tem divisões nem pode comandar.” (Papa Bento XVI)

Entre o chão informe e um céu sem estrelas, uma confusa multidão de corpos nus se movia aos gritos. Uma nuvem de vespas acompanhava a desesperada vaga humana e dos rostos contorcidos, cortados por ferrões, rolava o sangue misturado às lágrimas, que servia de repasto aos vermes. À entrada daquele mundo de treva e dor, pendia, feito sentença, a inscrição: “Deixai toda esperança, o vós que entrais”. Foi assim que Dante Alighieri descreveu as portas do Inferno, no Canto III da “Divina Comédia”, onde chegara acompanhado pelo poeta latino Virgílio, seu guia pagão da Antiguidade Clássica. E, entre a multidão de almas penadas, contou ter reconhecido Celestino V, o papa “que fez, por covardia, a grã recusa”, isto é, renunciou ao papado. Dante se assombra com o desespero daquelas almas e Virgílio lhe explica que se trata de covardes, entre eles o papa renunciante, que viveram sem infâmia, mas também sem louvor. O céu não os queria e o inferno os rechaçava; não mereciam lembrança nem misericórdia: “Non ragioniam di lor, ma guarda e passa” (“Deles não cuideis, mas olha e passa”) – aconselha Virgílio.

É assim que o Papa Bento XVI será lembrado, como o Celestino V de Dante Alighieri, lançado às portas do Inferno como covarde, entre o escárnio do demônio e a indiferença divina? Provavelmente, não. Começando pelo fato de que o grande poeta florentino foi um tanto duro com Pietro da Morrone, eleito papa em 5 de julho de 1294, que, ao renunciar cinco meses depois, em 13 de dezembro do mesmo ano, abriu caminho para o ambicioso Bonifácio VIII, inimigo de Dante, daí a injusta raiva do poeta, imortalizada na “Divina Comédia”. O efêmero pontificado de Celestino V se deu numa época de profunda crise da Igreja, convulsionada pelas guerras de poder da Europa medieval. A Igreja vive novamente uma crise (que instituição de seu tamanho não as vive de forma recorrente?), mas Bento XVI está muito distante de Celestino V, não só no tempo, mas também no caráter. Se o século XXI fosse capaz de uma “Divina Comédia”, Joseph Ratzinger estaria entre os eleitos, ao lado de Pedro Hispano, o sábio português (médico, matemático e filósofo), que se tornou o papa João XXI e foi homenageado por Dante, que o pôs no Paraíso, a “luzir em seus 12 livros”.

Pietro da Morrone era um eremita de rigorosa vida ascética, que pouco conhecia do mundo e sabia menos ainda das intrigas dos nobres. Na época, a Igreja estava dividida entre duas históricas famílias de cardeais, os Orsini e os Colonna, e acossada pelo poder secular dos imperadores, especialmente o rei Carlos II de Anjou, que governava Nápoles e a Sicília. Diante do impasse de dois longos anos na escolha do novo papa, após a morte de Nicolau IV, em 1292, havia um anseio da cristandade para que fosse eleito um “Papa Angelicus”, nos moldes de São Francisco de Assis, que havia impressionado o mundo medieval com sua santidade. Esse anseio por um papa humilde, santo e apolítico interessava sobretudo ao poder secular. Tanto que Carlos II soube influir no pontificado de Celestino V, ampliando sobremaneira a influência francesa na Igreja, resultando no grande cisma da Idade Média, que dividiu o papado entre Roma e Avignon durante a maior parte do século XIV. A inapetência de Celestino V pelo poder levou-o a constituir uma comissão de cardeais para decidir se era possível a um papa renunciar. A comissão disse que sim e seu líder, o enérgico cardeal Bene­detto Gaetano, foi eleito papa aos 78 anos, com o nome de Bonifácio VIII.

“Helder Câmara” alemão

Bento XVI, também eleito papa aos 78 anos, se não chega a ser um político como Bonifácio VIII está longe de ser um ingênuo como Celestino V. Ao contrário do eremita medieval Pietro da Morrone, o cardeal Joseph Ratzinger — um intelectual e poliglota que fala dez línguas — já conhecia os meandros do poder em Roma muito antes de se tornar papa. Considerado dentro da Igreja uma espécie de “menino-prodígio” da teologia, o padre Ratzinger, com apenas 35 anos, tornou-se o principal conselheiro teológico do célebre cardeal Joseph Frings, arcebispo de Colônia e presidente da Conferência Episcopal Alemã durante 20 anos, entre 1945 e 1965. No livro “Meu Irmão, o Papa” (Editora Europa, 2011), depoimento do monsenhor e prestigiado maestro Georg Ratzinger ao jornalista Michael Hesemann, o cardeal Frings aparece como uma espécie de Dom Helder Câmara alemão. Na passagem do Ano Novo de 1946, quando a Alemanha padecia um inverno rigoroso, em meio às ruínas da Segunda Guerra Mundial, ele saiu em defesa dos pobres que haviam saqueado um trem de carvão: “Vivemos tempos em que um indivíduo, em seu desespero e necessidade, terá permissão para levar o que precisa para preservar saúde e sobrevivência, caso não possa obter de outra maneira, por meio de seu trabalho ou solicitação” — disse no seu sermão de São Silvestre.

No Concílio Vaticano II, Frings liderou um grupo de bispos e teólogos alemães e austríacos, entre os quais se encontrava Ratzinger, que propugnou profundas mudanças na Igreja, defendendo decisões menos hierárquicas e mais colegiadas, inclusive no antigo Santo Ofício, o temido instrumento da antiga Inquisição, comandado, na época pelo cardeal Alfredo Ottaviani, que se opunha às reformas. O que talvez nem Frings nem Ratzinger imaginavam é que, como diz o provérbio, quando se dá o pé, os incautos querem a mão, e as reformas do Concílio Vaticano II serviriam para que alguns teólogos radicais – mais marxistas do que cristãos – tentassem transformar a Igreja numa sucursal do Partido Comunista. É o caso da Teologia da Libertação, que tem entre seus líderes na América Latina justamente um ex-aluno de Joseph Ratzinger — o brasileiro Leo­nardo Boff. Em entrevista à Rádio França Internacional, Boff comentou a renúncia de seu antigo professor e disse que Ratzinger, “como teólogo, era extremamente gentil, uma pessoa fina”, mas que teria se tornado “uma pessoa muito dura em termos de conceitos e doutrinas” ao assumir o comando da Congregação para a Doutrina da Fé.

Nada mais errôneo do que essa afirmação do teólogo brasileiro, hoje casado e fora do clero. Assim como Frei Betto, que chegou a integrar o primeiro governo Lula, teólogos como Boff usam os evangelhos como panfletos, transformados em dogmas de ideologias estranhas à fé cristã. E o que é mais grave: sua teologia não se limita a agir no mundo através de uma aliança meramente estratégica com uma ideologia de ocasião, o que seria aceitável, à direita ou à esquerda, dependendo das circunstâncias, afinal a Igreja integra a realidade terrena e precisa interagir com ela; não, a Teologia da Libertação vai além da ação política e procura instaurar sua própria metafísica, reescrevendo Deus à imagem e semelhança de Marx. Foi isso que a Santa Sé — mesmo com toda a sua liberalidade, reforçada pelo Concílio Vaticano II — não podia tolerar. Na prática, a Teologia da Libertação decreta a morte de Deus, que tem de se submeter aos ditames do relativismo secular. Boff condena a Igreja até por não aceitar a teologia de gênero, como se Deus não passasse de um personagem literário passível de ser reescrito ao sabor da idiossincrasia de seus críticos. Pode até ser, e há grandes intelectuais que o tratam dessa forma, com reflexões esteticamente muito ricas, mas obviamente elas não condizem com religião e igreja, que são outra coisa.

Liberdade de pensamento

O jornalista francês Bernard Lecomte, em sua biografia homônima sobre João Paulo II (Editora Record, 2005), conta que o carismático papa tinha grande respeito pelos teólogos. “Não é por acaso que ele chama para junto de si já em 1980 um teólogo alemão dos mais brilhantes, conhecido durante o Vaticano II, com o qual nunca mais deixaria de trocar ideias: o bispo Joseph Ratzinger”, relata Lecomte. E a posição de João Paulo II seria praticamente a mesma de seu prefeito na Congregação para a Doutrina da Fé e, depois, Papa Bento XVI. João Paulo II era tolerante com os teólogos, respeitando seu livre pensamento e até suas discordâncias em relação à doutrina oficial da Igreja. Quando o teólogo alemão Hans Küng negou o princípio da infalibilidade papal e, em 1995, depois da encíclica “Evan­gelium Vitae”, acusou João Paulo II de ser um “ditador espiritual”, o Vaticano se limitou a não mais considerá-lo como um teólogo católico, sem no entanto excomungá-lo ou destituí-lo do sacerdócio. “O mesmo aconteceria com a maioria dos teólogos que aos olhos de João Paulo II falharam em sua missão eclesiástica”, conta Lecomte.

E cita outro exemplo: “Charles Curran, professor na Universidade Católica da América, em Washin­gton, fora a certa altura, aos 34 anos, uma das pontas de lança da oposição à encíclica Humanae Vitae, o famoso texto de Paulo VI que proibia a pílula anticoncepcional. Também ele, mesmo mantendo sua cátedra, enrijeceu-se na contestação, livro após livro, artigo após artigo, especialmente sobre as questões sexuais. No dia 25 de julho de 1986, depois de várias advertências, Ratzinger — com o aval de João Paulo II — comunica-lhe que já não estava mais ‘apto a exercer a função de professor de teologia católica’. Como Küng, Curran conservava sua condição de padre, não era incluído no Índex e podia ensinar livremente onde mais quisesse. Finalmente suspenso em seu ensino em Washington, ele moveu ação por rompimento abusivo de contrato, perdeu o processo em fevereiro de 1989 e foi ensinar para protestantes metodistas”. Por fim, Lecomte trata do teólogo alemão Eugen Drewermann, “que de tanto passar o Evangelho pelo crivo da psicanálise, acabou também numa posição que falseia a doutrina da Igreja, especialmente em relação à virgindade de Maria e a ressurreição de Cristo”. Esse teólogo também foi destituído de suas funções de ensino em instituição católica.

Bernard Lecomte também aborda o caso de Leonardo Boff, o “franciscano brasileiro” que “encarnou os desvios da teologia da libertação” e “tanta tinta fez correr dos dois lados do Atlântico”. Para o biógrafo, o “ex-aluno de Ratzinger aplicou uma análise deliberadamente ‘marxista’ a uma Igreja que a seus olhos representava uma estrutura hierárquica nociva” e, depois de advertido, com um pedido do Vaticano para que se abstivesse de declarações públicas durante um ano, Boff acabou abandonando o sacerdócio e se casando. Mas, ao contrário do que faz crer em suas inúmeras entrevistas, não pode acusar a Igreja de censurá-lo, afinal, Boff sempre teve amplo espaço na mídia, até maior do que o próprio papa, levando em conta que sempre fala o que quer, enquanto a cúpula do Vaticano geralmente aparece na imprensa como alvo de ataques. A rigor, todos esses casos, inclusive o do próprio Boff, revelam apenas uma legítima ação da Igreja no sentido de manter sua unidade doutrinária, o que, repito, é um direito — e mesmo um dever — até de partido político, que dirá de uma instituição religiosa. Afinal, a liberdade de culto é uma conquista do mundo ocidental forjado pelo cristianismo: quem não está contente com a Igreja não é obrigado a permanecer nela.

Patologias da razão

Bernard Lecomte explica a posição de João Paulo II em relação à liberdade de pensamento, o que vale para Joseph Ratzinger, seu escudeiro nas questões doutrinárias e, depois, sucessor: “Para o papa, um teólogo não ocupa a mesma posição de um filósofo ou de um sociólogo leigo, cujas investigações comprometem apenas a ele mesmo”, explica Lecomte. “O teólogo deve servir à Igreja e saber dar mostra de obediência ao magistério — caso não queira simplesmente deixar de ser um ‘teólogo católico’. Aqueles que não querem submeter-se têm toda liberdade de dar prosseguimento às suas pesquisas, mas não sob a égide da Igreja”. Essa visão de João Paulo II em relação aos teólogos tem sido a mesma de Bento XVI, desde os tempos em que era o guardião da doutrina e presidente da comissão que elaborou o “Catecismo da Igreja Católica”, obra publicada em 1992 sob o Pontificado de João Paulo II. Ao contrário do que dizem seus detratores, Ratzinger sempre foi um homem aberto ao diálogo com as mais diversas correntes de pensamento, inclusive com aquelas que se opõem à Igreja. Tanto que, em 19 de janeiro de 2004, quando ainda era prefeito da Congregação para a Dou­trina da Fé, protagonizou um debate com o filósofo Jürgen Habermas, partidário do laicismo, na Academia Ca­tólica da Baviera, em Munique, na Ale­manha.

Publicado no Brasil com o título de “Dialética da Secu­la­rização: Sobre Razão e Re­ligião” (Editora Ideias & Letras, 2007), o debate com Habermas mostra um Ratzinger que não hesita em citar pensadores criticados pelo Vaticano, como o próprio Hans Küng, propositor de uma “ética mundial”, tema que também preocuparia o futuro Bento XVI. Na conversa com Ha­bermas, Ratzinger sustenta que a ciência sozinha não poder gerar uma ética e é preciso que a filosofia (ele diz “filosofia” e não “teologia”) acompanhe de perto o desenvolvimento científico, “analisando de maneira crítica conclusões apressadas e falsas certezas sobre o que é o homem, de onde vem e porque existe”, ou seja, “depurando os resultados científicos do elemento não científico que amiúde se mescla com eles”. E ao refletir sobre o fanatismo religioso que se associa ao terror, ele se pergunta se a religião não deveria se pôr sob o comando da razão, já que pode ser tão perigosa. E indaga se superar a religião não seria a única forma de se alcançar o “caminho de liberdade e tolerância universal”. Mas sua própria resposta, como não poderia deixar de ser numa mente lúcida, é negativa. Não porque Ben­to XVI acredite na infalibilidade da religião, mas porque está consciente da falibilidade da razão.

Joseph Ratzinger observa que a ciência deu ao homem a capacidade de produzir ho­mens: “O homem se converte em um produto, de sorte que a relação do homem consigo mesmo se transforma radicalmente. Não é mais um dom da natureza ou do Deus criador; é um produto fa­bricado por ele mesmo”. E co­mo o homem desceu às fontes mais profundas do poder, as fontes de sua própria existência, o ele se vê tentado a ir além de todos os limites: “Agora, a tentação de construir o homem perfeito, a tentação de fazer experimentos com ho­mens, a tentação de considerar os homens como resíduos e desfazer-se deles já não são fantasias de moralistas hostis ao progresso”. Diante disso, Ra­tzin­ger sustenta que, assim como a religião deve ser questionada em face do fanatismo, também deve “surgir a dúvida sobre a fiabilidade da razão”. E pondera aristotelicamente: “Não deveria quiçá circunscrever-se reciprocamente a religião e a razão, mostrar-se uma à outra os respectivos limites e ajudar-se a encontrar o caminho?”. Ratzin­ger enfatiza claramente que, “na religião há patologias perigosas que precisam ser consideradas à luz divina da razão”, mas também lembra que “há patologias da razão que não são menos perigosas”. O sociólogo Dur­kheim — um ateu — subscreveria integralmente essa frase do cardeal Ratzinger.

Combate ao relativismo

A grande missão que Joseph Ratzinger se impôs, primeiro no comando da Congregação pela Doutrina da Fé e depois como Papa, foi o combate ao relativismo. A imprensa laica, especialmente a brasileira, exige que a Igreja subscreva as demandas dos gays de passeata, reduza o sexo a uma questão de preservativo e transforme o aborto em direito humano, além de abrir o sacerdócio para as mulheres. Ora, nem partido político que se preze deve proceder como um caniço, vergando-se ao vento de ocasião. O PT, por exemplo, só conquistou a República porque, ao contrário dos demais partidos, soube ter uma doutrina coerente para oferecer aos militantes, expurgando filiados que discordavam de sua ideologia e rejeitando alianças que pudessem desvirtuá-la. Só depois de formar essa estrutura sólida, forjada na rara capacidade de dizer não, é que o PT se abriu às alianças, pois aí já não corria o risco de se tornar indiscernível das demais siglas fisiológicas. Portanto, se um partido político precisa ser coerente com sua história de algumas décadas, por que a Igreja Católica, com quase 2 mil anos de existência, deveria ceder às demandas cambiantes dos profissionais de passeata? Elas mudam a cada verão, como as demandas do movimento gay, que começou se identificando como “GLT” e, hoje, já caminha para ser GLBTTXYZ...

Ao contrário do que pensam os relativistas que dominam universidades e redações, a natureza oferece fatos irretorquíveis, que a Igreja — hoje portadora da razão até mais do que a ciência — é praticamente a única a reconhecer. Quando a Igreja se recusa a trocar a dualidade do sexo biológico pela subjetividade da orientação sexual, está apenas reconhecendo os impérios da razão. Algo a que a medicina abdicou, empenhada que está em satisfazer a voracidade de poder da militância gay. Mas por mais que essa militância — de mãos dadas com as feministas dos estudos de gênero — inventem sexos virtualmente configuráveis, nas maternidades os obstetras continuam definindo binariamente para as mães a identidade sexual de seus bebês: é menino ou menina — não existe outra alternativa, salvo nos raros casos de hermafroditismo. Logo, por que seria um avanço a Igreja colocar em pé de igualdade com os casais heterossexuais os casais de mesmo sexo? É óbvio que esses casais devem ser aceitos — e são, inclusive pela Igreja, que não os persegue — mas daí a transformá-los em ideal a ser estimulado nas escolas, como se tem feito, vai uma grande distância. O próprio Bento XVI, em sua defesa dos valores morais, sabe que eles são um farol. Pelo fato de navios naufragarem, os faróis devem ser apagados?

Todo excruciante pontificado de Bento XVI foi uma luta ingente em defesa da verdade. Não como dogma de uma Igreja avara, mas como anseio universal no coração do homem, como sabia Santo Agostinho. Justamente por isso, o papa se viu atacado de todos os lados. A imprensa de todo o mundo, além de tentar transformá-lo num pontífice retrógrado, omitiu todos os seus esforços no sentido de dar resposta para a crise da Igreja — que ele sempre foi o primeiro a reconhecer. Bento XVI enfrentou com muita coragem o problema dos padres pedófilos (por sinal exagerado pela mídia), determinando ao clero que colaborasse com a Justiça e amparasse as vítimas, mas a imprensa faz de conta que ele nada fez a respeito. No livro “Benedicto XVI: Luz del Mundo” (Barcelona: Editora Herder, 2010), uma longa, franca e inusitada entrevista concedida pelo papa ao jornalista alemão Peter Seewald, Bento XVI discorre sobre esse e outros problemas da Igreja, abordando, inclusive, a possibilidade da renúncia papal. Mas deixa claro que ela só pode ocorrer depois de afastado o perigo que corre a Igreja. Resta saber se esse perigo foi afastado.

O diálogo como legado

A renúncia de Bento XVI não foi motivada apenas por sua saúde. Ela, sem dúvida, é frágil, mas se a cúria estivesse unida ele poderia definhar no trono de São Pedro, como fez João Paulo II, amparando-se na confiança que depositava no próprio Ratzinger. Mas o tímido, gentil e lúcido teólogo alemão talvez já não tenha em quem confiar num cardinalato que o elegeu contando os seus dias. Como ele próprio disse na entrevista ao jornalista Peter Seewald, “Stalin tinha razão ao dizer que o Papa não tem divisões nem pode comandar”.

Prosseguindo a obra de João Paulo II, Bento XVI procurou fortalecer os setores da Igreja que tinha sido amordaçados pelas vanguardas radicais do Concílio Vaticano II e, vencendo a própria timidez, conseguiu dialogar com a juventude. Não para fazer a vontade dos jovens, mas para ensinar a eles que existe a verdade. Sem ela, até o amor “torna-se um invólucro vazio, que se pode encher arbitrariamente”, como escreveu na encíclica “Caritas in Veritate” (“Caridade na Verdade”). Para Bento XVI, “a verdade, fazendo sair os homens das opiniões e sensações subjetivas, permite-lhes ultrapassar determinações culturais e históricas para se encontrarem na avaliação do valor e substância das coisas”. Por isso, sua renúncia talvez seja uma tentativa de confrontar não só a Igreja, mas o Ocidente com a verdade. No fundo, Bento XVI, ao renunciar, não quer salvar a Igreja — quer salvar o homem. Pois sem valores perenes ele não se sustenta e não difere dos vermes da terra.

Como se vê, o pensamento de Joseph Ratzinger nada tem de obscurantista, como insistem em dizer seus adversários em todo o mundo, especialmente no Brasil do hedonismo empírico, movido a carnavais. Sua razão é a da imorredoura filosofia clássica, filha da lucidez de Aristóteles. O que sua teologia busca não é o Jeová caricato do Antigo Testa­mento, pintado canhestramente pela exegese de gênero das feministas, mas o homem moderno da tradição judaico-cristã, que fundamenta a civilização ocidental. E esse homem só é possível na verticalidade do espírito que ousa ir além da matéria, reconhecendo na ciência um instrumento de saber, não um altar de adoração. Para isso é preciso que a ciência respeite a religião — não porque ela detenha a verdade, mas porque dialoga com o desconhecido. Não é assim que a ciência também progride, ousando ir além do que já conhece? Quando o cientista se arvora a ser Deus — e munido de Marx, Darwin e Freud — acredita-se capaz de explicar a história, a natureza e a mente, ele mata a dúvida que move a ciência. Mas, como o legado de Bento XVI nos dá a entender, a dúvida não se confunde com a mera negação do relativismo: ela é o anseio insatisfeito pela verdade e, dessa forma, não apenas aguça o saber que move a ciência — mas alicerça a própria ética que fundamenta o humano.   

terça-feira, 28 de maio de 2013

Solenidade de Corpo e do Sangue do Senhor

Estamos para celebrar a festa de Corpus Christi (= Corpo de Cristo), festa da Eucaristia, proclamação da presença real do Cristo morto e ressuscitado no pão e no vinho consagrados.
Tendo em mente o mistério eucarístico, São Paulo pergunta: “O cálice de bênção que abençoamos, não é comunhão com o sangue de Cristo? O pão que partimos, não é comunhão com o corpo de Cristo?” (1Cor 10,16)
Tais afirmações, em forma de perguntas e, à primeira vista, tão simples, têm uma força e significação enormes... Comunhão com o sangue de Cristo, comunhão com o corpo do Senhor... Expressões fortes, cheias de significado, plenas de consequências...
Na Escritura Sagrada, o “sangue” não é simplesmente uma realidade material, o líquido vermelho que circula em nossas artérias, mas, sobretudo, a vida e, muitas vezes, a vida tirada violentamente.
Dar o sangue quer dizer dar a vida, vida sofrida, violentada, arrancada de modo cruel.
“Sangue de Cristo” significa, portanto, a vida de Jesus dada em sacrifício, tirada de modo violento; a vida que Ele entregou, derramou, esparramou por nós.
“Corpo”, nas Escrituras Santas, não significa primeiramente os músculos nossos, mas sim o homem todo, a pessoa toda, na sua situação de criatura limitada, frágil, mortal.
Assim, “corpo de Cristo” significa a natureza humana que o Filho de Deus assumiu por nós de Maria, a Virgem: “O Verbo Se fez carne” (Jo 1,14), quer, então, dizer, fez-Se homem, fez-Se realmente humano, com um corpo humano e uma alma humana, com inteligência, vontade, consciência, afeto, sentimento, sonho e liberdade humanas.
Então, dar o corpo significa dar-se todo, dar toda sua vida humana: seus sonhos, cansaços, desilusões, sofrimentos... Dar tudo quanto a pessoa é!
Foi assim que Jesus Se nos deu: em todo o Seu ser, sem reservas; doou-nos Sua vida humana de Filho de Deus e Sua morte tão de homem, mas vivida e sofrida por uma Pessoa divina, a segunda da Trindade! Mistério santo! Amor incomensurável!
São Paulo afirma que o pão que partimos é comunhão com o Corpo do Senhor. Palavra estupenda!
Comungar na Eucaristia significa, então, entrar numa comunhão misteriosa e real com a Pessoa divina mesma de Jesus; mas não uma pessoa desencarnada: é entrar em comunhão com tudo quanto Ele viveu, experimentou em Sua natureza humana – corpo e alma humanos - existência humana; é ter comunhão com os ideais de Jesus, com o modo de viver e agir de Jesus, com as opções, esperanças e angústias de Jesus, com o sofrimento de Jesus, com a morte e sepultura de Jesus, com a ressurreição e glorificação de Jesus!
Comungar daquele Pão não é simplesmente receber uma presença estática, fria... É comungar com Jesus na totalidade da Sua existência, é colocá-Lo na nossa existência, não mais viver por nós mesmos, sozinhos conosco, do nosso modo, mas viver nossa vida na vida de Jesus, que por nós morreu e ressuscitou (cf. 2Cor 5,15)!
Aqui, precisamente, cabem alguns urgentes questionamentos...
Os cristãos têm consciência desse tão grande mistério de configuração a Cristo, que é a Eucaristia?
Individualmente e como Igreja, temos presente esta nossa misteriosa e estupenda vocação, que é trazer em nosso corpo a agonia de Jesus, a fim de que a vida de Jesus seja também manifestada em nosso corpo (cf. Fl 4,10)?
Como os cristãos nos comportamos diante dos desafios da vida pessoal e comunitária?
Estamos nós, os cristãos, dispostos a viver para o Senhor ou somente para nós mesmos, segundo a lógica do mundo contemporâneo?
Nossa evangelização tem levado a esta comunhão existencial com o Cristo no mistério da Sua vida, morte e ressurreição?
Notemos que o que está em jogo aqui é a própria identidade do cristianismo! Sem esta consciência não há, de fato, uma vida cristã!
E o cálice, o santo Apóstolo diz que é comunhão no Sangue de Cristo; quer dizer comunhão na Sua entrega, na Sua morte, morrida por nós!
Participar do cálice do Senhor é estar dispostos a beber na vida o cálice com Ele, a ser batizados no batismo de morte no qual Ele foi batizado (cf. Mc 10,38)!
Portanto, participar do pão e do vinho eucarísticos é entrar em comunhão de vida e morte com o Senhor, é “com-viver” com Cristo, é conhecê-lo, conhecer o poder de Sua ressurreição e a participação nos Seus sofrimentos, “com-formando-nos” com Ele na Sua morte, “com-morrendo” com Ele para alcançar a Sua ressurreição dentre os mortos (cf. Fl 3,10).
Esta é a experiência central da vida cristã: viver nesta comunhão plena de vida e morte com o Senhor!
Atenção: ser cristão não é primeiramente aderir a doutrinas ou a uma moral, mas, antes de tudo, entrar em comunhão com Alguém, com o Senhor Jesus.
Pode-se, então, compreender aquelas palavras de fogo do santo Bispo de Antioquia, Inácio, que no século I, ao dirigir-se para o martírio, no qual seria devorado pelas feras, exclamava: “Coisa alguma visível ou invisível me impeça de encontrar Jesus Cristo. Maravilhoso é para mim morrer por Jesus Cristo. A Ele é que procuro, Ele que morreu por nós; quero Aquele que ressuscitou por nossa causa. Permiti que eu seja imitador do sofrimento do meu Deus! Meu amor está crucificado! Quero o pão de Deus que é a Carne de Jesus Cristo, da descendência de Davi, e como bebida quero o Sangue Dele, que é amor incorruptível. Sou trigo de Deus e sou moído pelos dentes das feras, para encontrar-me como pão puro de Cristo. Quando lá chegar serei homem!
Palavras estonteantes! Inácio de Antioquia compreendera o que significava celebrar a Eucaristia, participar do Corpo e Sangue do Senhor imolado e ressuscitado!
Que nossas eucaristias sejam realmente a celebração desta comunhão de vida, sonho, agir, morte e ressurreição com o Cristo, cujo Corpo e Sangue oferecemos em sacrifício e recebemos em comunhão. É disto que o mundo tanto precisa; é isto que o mundo espera, mesmo sem o saber: o nosso testemunho de comunhão com o Salvador! Só assim tem realmente sentido proclamar nossa fé na Presença real do Senhor no pão e no vinho eucarísticos.


"Felizes os que não Te viram e acreditaram em Ti.
Felizes os que não contemplaram o Teu rosto
e proclamaram a Tua divindade.
Felizes os que, lendo o Evangelho,
reconheceram em Ti Aquele a quem esperavam.
Felizes os que viram a Tua divina presença
naqueles que enviaste!"

"Felizes os que, no segredo do seu coração,
acolheram o Teu apelo e se entregaram.
Felizes os que, animados pelo desejo de encontrar o Eterno,
Te pressentiram no mistério.
Felizes os que, nos momentos de trevas,
aderiram com mais firmeza à Tua luz!"

"Felizes os que, esmagados pela provação,
permanecem confiando em Ti.
Felizes os que, experimentando a Tua Ausência,
continuam a acreditar na Tua Presença!
Felizes os que, sem Te terem visto,
vivem a certeza de Te ver um Dia..."

autor: Dom Henrique Soares da Costa

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

A Renúncia do Papa


Nos funerais do Bemaventurado Papa João Paulo II, como na Missa de coroação do então recém-eleito Papa Bento XVI, o texto do Evangelho previsto pela Liturgia faz parte do capítulo 21 do Evangelho segundo São João, no qual Jesus pergunta por três vezes a Pedro se este O ama. Na primeira vez, porém, o Senhor pergunta: “Pedro, tu me amas mais do que estes?”.
No curso de seu longo pontificado, João Paulo II nada mais fez do que responder a esta pergunta. A cada passo, em todas as viagens, sob fogo cerrado da mídia internacional, suportando duras críticas, tornando-se vítima de um atentado, a cada Missa celebrada, com todas as suas palavras e também no silêncio e na solidão, o Papa Wojtyla respondia: “sim, Senhor, tu sabes que eu te amo”. Como Pedro.
Ao ver Bento XVI iniciar seu pontificado sob a mesma interrogação de Jesus, pensei que devia ser exatamente por este motivo que ele havia sido eleito. Porque, tal como Karol Wojtyla, Joseph Ratzinger amava ao seu Senhor mais do que os outros.
Nestes últimos dias, depois do impacto inicial do anúncio da renúncia do Papa Bento XVI e já tendo lido muitos comentários, alguns comovidos e agradecidos, outros fazendo críticas, lembrei-me bastante dessa reflexão que fiz há quase oito anos atrás, quando Bento XVI apresentava-se ao mundo como um “simples e humilde trabalhador da vinha do Senhor”.
E pensando mais uma vez nessa interrogação de Jesus a Pedro, entendi que, justamente através da renúncia, Joseph Ratzinger responde ao seu Senhor: “sim, Senhor, tu sabes que eu te amo”. Como respondeu sempre, durante toda a sua vida e particularmente nos últimos oito anos, com toda a humildade.
A tristeza acompanha estes últimos dias, que têm um sabor de despedida melancólica. Digo adeus a um Papa que aprendi a amar tanto quanto o primeiro que conheci, João Paulo II. Dois grandes homens, dois grandes servos de Deus. De João Paulo II recebi o exemplo da força, do impulso, da coragem, da perserverança, da fé profunda – “não tenhais medo de abrir as portas a Cristo”. E Bento XVI deixa o legado da humildade, do silêncio, da renúncia e da profundidade do amor que verdadeiramente renuncia a tudo, inclusive e principalmente a si mesmo, pelo Amado.
Rezemos pelo Papa Bento XVI, pois foi certamente muito difícil tomar esta decisão, como deve ser angustiante viver estes dias antes da anunciada e efetiva renúncia. E rezemos, neste Tempo de Quaresma, por nossa Igreja e pelos cardeais que agora tem nas mãos a tarefa de eleger um novo sucessor de Pedro. Que o Espírito Santo os ilumine, a fim de que escolham aquele dentre eles que ama a Nosso Senhor mais do que os outros.
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