terça-feira, 28 de maio de 2013

Solenidade de Corpo e do Sangue do Senhor

Estamos para celebrar a festa de Corpus Christi (= Corpo de Cristo), festa da Eucaristia, proclamação da presença real do Cristo morto e ressuscitado no pão e no vinho consagrados.
Tendo em mente o mistério eucarístico, São Paulo pergunta: “O cálice de bênção que abençoamos, não é comunhão com o sangue de Cristo? O pão que partimos, não é comunhão com o corpo de Cristo?” (1Cor 10,16)
Tais afirmações, em forma de perguntas e, à primeira vista, tão simples, têm uma força e significação enormes... Comunhão com o sangue de Cristo, comunhão com o corpo do Senhor... Expressões fortes, cheias de significado, plenas de consequências...
Na Escritura Sagrada, o “sangue” não é simplesmente uma realidade material, o líquido vermelho que circula em nossas artérias, mas, sobretudo, a vida e, muitas vezes, a vida tirada violentamente.
Dar o sangue quer dizer dar a vida, vida sofrida, violentada, arrancada de modo cruel.
“Sangue de Cristo” significa, portanto, a vida de Jesus dada em sacrifício, tirada de modo violento; a vida que Ele entregou, derramou, esparramou por nós.
“Corpo”, nas Escrituras Santas, não significa primeiramente os músculos nossos, mas sim o homem todo, a pessoa toda, na sua situação de criatura limitada, frágil, mortal.
Assim, “corpo de Cristo” significa a natureza humana que o Filho de Deus assumiu por nós de Maria, a Virgem: “O Verbo Se fez carne” (Jo 1,14), quer, então, dizer, fez-Se homem, fez-Se realmente humano, com um corpo humano e uma alma humana, com inteligência, vontade, consciência, afeto, sentimento, sonho e liberdade humanas.
Então, dar o corpo significa dar-se todo, dar toda sua vida humana: seus sonhos, cansaços, desilusões, sofrimentos... Dar tudo quanto a pessoa é!
Foi assim que Jesus Se nos deu: em todo o Seu ser, sem reservas; doou-nos Sua vida humana de Filho de Deus e Sua morte tão de homem, mas vivida e sofrida por uma Pessoa divina, a segunda da Trindade! Mistério santo! Amor incomensurável!
São Paulo afirma que o pão que partimos é comunhão com o Corpo do Senhor. Palavra estupenda!
Comungar na Eucaristia significa, então, entrar numa comunhão misteriosa e real com a Pessoa divina mesma de Jesus; mas não uma pessoa desencarnada: é entrar em comunhão com tudo quanto Ele viveu, experimentou em Sua natureza humana – corpo e alma humanos - existência humana; é ter comunhão com os ideais de Jesus, com o modo de viver e agir de Jesus, com as opções, esperanças e angústias de Jesus, com o sofrimento de Jesus, com a morte e sepultura de Jesus, com a ressurreição e glorificação de Jesus!
Comungar daquele Pão não é simplesmente receber uma presença estática, fria... É comungar com Jesus na totalidade da Sua existência, é colocá-Lo na nossa existência, não mais viver por nós mesmos, sozinhos conosco, do nosso modo, mas viver nossa vida na vida de Jesus, que por nós morreu e ressuscitou (cf. 2Cor 5,15)!
Aqui, precisamente, cabem alguns urgentes questionamentos...
Os cristãos têm consciência desse tão grande mistério de configuração a Cristo, que é a Eucaristia?
Individualmente e como Igreja, temos presente esta nossa misteriosa e estupenda vocação, que é trazer em nosso corpo a agonia de Jesus, a fim de que a vida de Jesus seja também manifestada em nosso corpo (cf. Fl 4,10)?
Como os cristãos nos comportamos diante dos desafios da vida pessoal e comunitária?
Estamos nós, os cristãos, dispostos a viver para o Senhor ou somente para nós mesmos, segundo a lógica do mundo contemporâneo?
Nossa evangelização tem levado a esta comunhão existencial com o Cristo no mistério da Sua vida, morte e ressurreição?
Notemos que o que está em jogo aqui é a própria identidade do cristianismo! Sem esta consciência não há, de fato, uma vida cristã!
E o cálice, o santo Apóstolo diz que é comunhão no Sangue de Cristo; quer dizer comunhão na Sua entrega, na Sua morte, morrida por nós!
Participar do cálice do Senhor é estar dispostos a beber na vida o cálice com Ele, a ser batizados no batismo de morte no qual Ele foi batizado (cf. Mc 10,38)!
Portanto, participar do pão e do vinho eucarísticos é entrar em comunhão de vida e morte com o Senhor, é “com-viver” com Cristo, é conhecê-lo, conhecer o poder de Sua ressurreição e a participação nos Seus sofrimentos, “com-formando-nos” com Ele na Sua morte, “com-morrendo” com Ele para alcançar a Sua ressurreição dentre os mortos (cf. Fl 3,10).
Esta é a experiência central da vida cristã: viver nesta comunhão plena de vida e morte com o Senhor!
Atenção: ser cristão não é primeiramente aderir a doutrinas ou a uma moral, mas, antes de tudo, entrar em comunhão com Alguém, com o Senhor Jesus.
Pode-se, então, compreender aquelas palavras de fogo do santo Bispo de Antioquia, Inácio, que no século I, ao dirigir-se para o martírio, no qual seria devorado pelas feras, exclamava: “Coisa alguma visível ou invisível me impeça de encontrar Jesus Cristo. Maravilhoso é para mim morrer por Jesus Cristo. A Ele é que procuro, Ele que morreu por nós; quero Aquele que ressuscitou por nossa causa. Permiti que eu seja imitador do sofrimento do meu Deus! Meu amor está crucificado! Quero o pão de Deus que é a Carne de Jesus Cristo, da descendência de Davi, e como bebida quero o Sangue Dele, que é amor incorruptível. Sou trigo de Deus e sou moído pelos dentes das feras, para encontrar-me como pão puro de Cristo. Quando lá chegar serei homem!
Palavras estonteantes! Inácio de Antioquia compreendera o que significava celebrar a Eucaristia, participar do Corpo e Sangue do Senhor imolado e ressuscitado!
Que nossas eucaristias sejam realmente a celebração desta comunhão de vida, sonho, agir, morte e ressurreição com o Cristo, cujo Corpo e Sangue oferecemos em sacrifício e recebemos em comunhão. É disto que o mundo tanto precisa; é isto que o mundo espera, mesmo sem o saber: o nosso testemunho de comunhão com o Salvador! Só assim tem realmente sentido proclamar nossa fé na Presença real do Senhor no pão e no vinho eucarísticos.


"Felizes os que não Te viram e acreditaram em Ti.
Felizes os que não contemplaram o Teu rosto
e proclamaram a Tua divindade.
Felizes os que, lendo o Evangelho,
reconheceram em Ti Aquele a quem esperavam.
Felizes os que viram a Tua divina presença
naqueles que enviaste!"

"Felizes os que, no segredo do seu coração,
acolheram o Teu apelo e se entregaram.
Felizes os que, animados pelo desejo de encontrar o Eterno,
Te pressentiram no mistério.
Felizes os que, nos momentos de trevas,
aderiram com mais firmeza à Tua luz!"

"Felizes os que, esmagados pela provação,
permanecem confiando em Ti.
Felizes os que, experimentando a Tua Ausência,
continuam a acreditar na Tua Presença!
Felizes os que, sem Te terem visto,
vivem a certeza de Te ver um Dia..."

autor: Dom Henrique Soares da Costa